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POLL OLE GI: “Estamos perante o desaparecimento massivo de insetos, os meta-análises estipulam que estamos perante o desaparecimento de mais de 70% da biomassa de insetos, o que é realmente preocupante”

Esta semana falamos com Juan Carlos Rad Moradillo, professor e investigador da Universidade de Burgos e responsável do projeto Poll Ole Gi para a promoção da biodiversidade e a proteção dos polinizadores. + info

Em que consiste Poll Ole Gi?

POLL OLE GI promove a biodiversidade no meio agrícola e principalmente, de agricultura intensiva, muito comuns no sudoeste europeu. Esta promoção da biodiversidade faz-se através da criação de estruturas verdes. No nosso caso específico, quando se fala de estruturas verdes referimo-nos à criação de ilhas dentro dos campos de cultivo. Estas ilhas têm uma vegetação floral atrativa e fornece alimento e refúgio necessários a esta comunidade de insetos o máximo de tempo possível. Com Poll Ole GI, concentramo-nos sobre a biodiversidade das culturas de oleaginosas porque este tipo de cultura requer uma polinização pelos insetos e estas ilhas favorecem a polinização natural.


De quantas ilhas dispõem? Como se criam as ilhas?

Em Espanha, dispomos de 21 ilhas. Para a sua criação, reservamos uma parte da superfície agrícola para semear uma mistura de 12 sementes testadas previamente. Estas sementes são atrativas para os polinizadores; produzem uma alimentação equilibrada e florescem mais ou menos de maneira contínua, desde finais de março até ao período de floração do girassol que aqui se encontra entre junho e agosto. Nas ilhas aplicamos um composto para que tenham um meio mais rico mesmo que não seja sempre necessário, dado que, normalmente, trata-se de campos de cultura onde permanece nutrimentos residuais e todas as plantas, em geral, não pedem muitos nutrientes. Instalamos igualmente ninhos polinizadores nas ilhas que são um conjunto de canas de diferentes tamanhos, para que os polinizadores possam instalar-se.


Atualmente, fala-se do desaparecimento massivo dos polinizadores. Porque estão a desaparecer? Quais são as consequências?

Trata-se de um problema muito grave. ¾ das culturas mais habituais, das quais dependemos, tem necessidade de uma polinização entomófila. Entre as causas, está a alteração climática. É evidente que existe uma alteração do ritmo das estações e de certa forma, existe um desajustamento entre o ritmo gemológico da vegetação e o ritmo fenológico dos insetos que antes estavam associados. Tudo isto é inevitável: a alteração climática é bem real e não parece que sejamos capazes de inverter, mas devemos empreender medidas para minimiza-lo. Uma das outras razões está relacionada com o tipo de agricultura que praticamos: uma agricultura intensiva, que faz uso de substâncias tóxicas que, ainda que se controlam cada vez mais e se tenham reduzido bastante, são componentes tóxicos que permanecem e se transmite ao pólen das plantas e, que consequentemente afetam os insetos assim como os polinizadores. Por isso é importante tomar medidas: no nosso caso, fizemos ensaios com “biochar”, uma espécie de carvão vegetal que atua como barreira. Uma outra medida é a dos beneficiários franceses que estudam o efeito da redução dos herbicidas de modo que os próprios campos disponham de uma vegetação variada espontânea que ajude a dar recursos aos polinizadores quando não há flor.


Em que medida a cooperação transnacional beneficia o projeto?

Concentramo-nos numa tipologia de culturas comuns do sudoeste europeu. As nossas realidades climáticas são diversas mas os mecanismos de estudo, como o inventário dos polinizadores, foi desenvolvido seguindo a mesma metodologia. Isto é muito importante porque às vezes estamos perante perdas de biodiversidade que são difíceis de comparar porque as metodologias empregues para estudar as mesmas são diferentes.


Este modelo pode exportar-se a outras zonas da Europa?

Sim. Vamos incorporar os nossos dados a dados em aberto, provavelmente através de uma publicação científica que estará à disposição da comunidade internacional. É de resto evidente que existe um interesse em relação a este assunto porque existem poucos estudos sobre o mundo agrícola e sobretudo relativos ao interior da península ibérica.


Assiste-se hoje a um verdadeiro momento de ativismo climático importante: o dia 15 de março foi marcado pela mobilização dos jovens que reclamam medidas para travar a alteração climática, os governos promovem projetos ecológicos, etc. Segundo a sua opinião, que medidas podemos tomar para travar o que está a acontecer?

A primeira medida seria diversificar as culturas e estabelecer um sistema de rotação de culturas, uma ruptura da uniformidade das espécies. E sobretudo, é necessário aumentar os travões à generalização de patogénicos da nossa agricultura. Quanto mais diversificado for a agricultura, mais limitadas serão as agressões ao ambiente. Também, em relação alteração climática, podemos recorrer a outras metodologias. Fala-se muita de agricultura de conservação que se pode combinar por exemplo, com coberturas vegetais. Em Espanha, utiliza-se os pousios com sementes, ou seja, não deixar a terra sem cultivar sem proteção vegetal.


A nível europeu, que medidas lhe parecem oportunas para a proteção dos polinizadores?

O mais importante seria que se cuidassem as margens multi funcionais, ou seja, estabelecer zonas de transição entre as zonas cultiváveis e naturais, e também os corredores.


Em que proporções estão a desaparecer os polinizadores e em que proporção um projeto como Poll Ole Gi pode travar este desaparecimento?

Estamos atualmente perante o desaparecimento massivo de insetos, os meta-análises estipulam que mais de 70% dos insetos desapareceu, o que é realmente preocupante. Dispomos de dados quantitativos que demonstram que nas nossas ilhas, a quantidade de polinizadores aumenta de forma significativa.


Qual é a sua opinião sobre o futuro dos polinizadores?

Temos uma agricultura cada vez mais técnica, com por exemplo o uso de drones que realizam trabalhos de polinização, nas estufas utilizam-se outras espécies para conseguir a polinização, noutras culturas poliniza-se à mão, etc. mas no caso da agricultura intensiva estes sistemas são impossíveis. Devemos utilizar instrumentos pouco dispendiosos e naturalizar o que destruímos.