
O documento mostra como o Alentejo está a reforçar a gestão da escassez de água, combinando planeamento hidrológico, modernização do regadio e uma forte aposta em ferramentas digitais para monitorizar, planear e otimizar a gestão da rega. Destina-se especialmente a aproveitamentos hidroagrícolas e explorações agrícolas que precisam de se adaptar a um contexto de alterações climáticas, com menos precipitação, mais calor e secas mais frequentes e intensas.
Contexto climático e regadio no Alentejo
O texto parte do impacto das alterações climáticas no Portugal mediterrânico: aumento da temperatura, redução e maior irregularidade da precipitação, maior evapotranspiração e défice hídrico crescente, com efeitos diretos sobre as necessidades de rega e a produtividade agrícola. O regadio é apresentado como atividade estratégica para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas de produção, desde que combinado com o uso eficiente da água e o aumento da capacidade de armazenamento.
O documento destaca a importância dos aproveitamentos hidroagrícolas do sul de Portugal e quantifica a capacidade de armazenamento do regadio coletivo do Alentejo em mais de 5.500 hm³, o que ilustra a escala dos sistemas a gerir em cenários de seca. Salienta ainda a necessidade de reavaliar as garantias de abastecimento desses sistemas face aos novos padrões climáticos e às necessidades de água.
Governança da água e planos de seca
Descreve-se o enquadramento jurídico europeu e português: a Diretiva-Quadro da Água e a Lei da Água organizam a gestão por regiões hidrográficas, estabelecendo princípios como o valor social, ambiental e económico da água e a importância do planeamento integrado. A Agência Portuguesa do Ambiente atua como autoridade nacional da água e coordena os planos de gestão de região hidrográfica, enquanto a DGADR exerce o papel de Autoridade Nacional do Regadio, supervisionando as associações de regantes.
O Plano de Prevenção, Monitorização e Contingência para Situações de Seca define conceitos, indicadores e ferramentas para gerir tanto a seca agrometeorológica como a hidrológica, estabelecendo quatro níveis de alerta (normalidade, pré-alerta, alerta e emergência) e conjuntos de medidas estruturais e não estruturais associadas a cada nível. Entre as medidas destacam-se o planeamento agrícola adaptado à disponibilidade de água, a promoção do uso eficiente, a reutilização de águas residuais e a melhoria da monitorização através do Programa de Vigilância e Alerta de Secas.
Eficiência do uso da água na rega
O relatório distingue estratégias a nível de aproveitamento hidroagrícola (rega coletiva) e a nível de exploração/parcela. Ao nível das infraestruturas, dá-se prioridade à modernização de canais abertos para redes pressurizadas, construção de reservatórios de armazenamento e operação eficiente de sistemas de bombagem e redes mistas, que em períodos de seca passam de rega à procura para turnos programados.
Na parcela, recomendam-se sistemas de rega eficientes (gota-a-gota, microaspersão, aspersão bem projetada), inspeções técnicas periódicas dos equipamentos (por entidades como o COTR), armazenamento e reutilização de água, e a adoção de regas deficitárias controladas adaptadas às fases sensíveis de cada cultura. Complementam-se com práticas agronómicas como melhoria da estrutura do solo, aumento da matéria orgânica, coberturas vegetais, escolha de espécies e variedades menos exigentes e ajuste do calendário de sementeira e colheita.
Soluções digitais perante a escassez
Uma parte central do documento é dedicada a como as tecnologias digitais potenciam a eficácia das medidas anteriores, tanto em regadios coletivos como em explorações individuais. Propõe-se manter inventários de culturas georreferenciadas em sistemas de informação geográfica e teledeteção, que permitem, entre outras finalidades, priorizar a sobrevivência de culturas lenhosas e planear a distribuição da água conforme os planos de contingência e a eficiência das redes.
O texto apresenta ferramentas para estimar necessidades de rega a partir da evapotranspiração de referência e dos coeficientes de cultura, integradas em aplicações como o Calendário de Rega e a plataforma PARE, que geram recomendações de dotação ajustadas ao clima, à cultura e ao sistema de rega. São ainda referidas redes de sensores IoT no solo e nas plantas, teledeteção com satélites e drones, contadores e manómetros digitais, e sistemas de telecontrolo que permitem monitorizar consumos em tempo real, detetar fugas e ajustar a operação das redes.
Gémeos digitais e perspetivas de futuro
O documento conclui destacando o potencial dos sistemas avançados de gestão, como os modelos preditivos baseados em inteligência artificial e os gémeos digitais dos aproveitamentos hidroagrícolas. Com base em séries históricas de sensores, dados climáticos, contadores e ocupação das culturas, estes modelos conseguem prever com grande precisão as necessidades de água a curto prazo e simular diferentes cenários de funcionamento em condições de escassez. Esta capacidade de simulação e antecipação permite otimizar simultaneamente o uso da água e da energia, apoiar decisões de repartição mais transparentes e reforçar a resiliência do regadio do Alentejo perante um clima cada vez mais exigente.
O documento está disponível aqui: Estratégias para a gestão da escassez no Alentejo