Um novo relatório da Agência Europeia do Ambiente (EEA) destaca o papel fundamental dos sistemas pecuários extensivos na conservação da biodiversidade europeia e na redução do risco de incêndios florestais.
O estudo conclui que cerca de 10-15% do efetivo bovino, ovino e caprino da União Europeia seria suficiente para assegurar, através do pastoreio extensivo, a gestão e a conservação dos habitats de interesse comunitário.
Um legado de milhares de anos
Os sistemas tradicionais de pastorícia têm moldado as paisagens e habitats semi-naturais da Europa há milhares de anos, desempenhando funções ecológicas anteriormente asseguradas por grandes herbívoros selvagens, como os auroques e os bisontes. Atualmente, cerca de um terço dos habitats listados no Anexo I da Diretiva Habitats depende do pastoreio extensivo para a sua manutenção.
A importância da pecuária extensiva ganha ainda maior relevância no contexto do Regulamento Europeu do Restauro da Natureza. Segundo o relatório, a recuperação destes habitats exigirá a implementação de regimes de pastoreio adequados, adaptados às características de cada ecossistema, recorrendo tanto a animais domésticos como, sempre que adequado, a herbívoros selvagens.
Declínio do pastoreio extensivo ameaça habitats e espécies protegidos
Adicionalmente, são identificados 63 tipos de habitats semi-naturais do Anexo I da Diretiva Habitats que dependem ou beneficiam significativamente de práticas agrícolas extensivas. Entre estes, encontram-se prados permanentes, charnecas, zonas húmidas e outras comunidades vegetais.
Uma grande proporção destes habitats localiza-se em áreas da Rede Natura 2000, onde o pastoreio extensivo constitui uma das principais ferramentas de gestão para manter a qualidade dos habitats e a diversidade das espécies.
Esta evidência reforça a pertinência do PASTONATUR Interreg Sudoe, que promove a pecuária extensiva como ferramenta de conservação e valorização dos espaços naturais protegidos do sudoeste europeu. Através do desenvolvimento de metodologias comuns de avaliação, da implementação de ações-piloto, da promoção de práticas de gestão regenerativa e da criação de uma rede transnacional de cooperação, o projeto pretende reforçar o conhecimento científico existente e demonstrar os benefícios desta atividade secular para a conservação da biodiversidade, a adaptação às alterações climáticas e o desenvolvimento sócio-económico dos territórios.
A importância destes habitats reflete-se também na conservação de inúmeras espécies protegidas pela legislação europeia. Entre 2010 e 2020, o número de explorações agrícolas extensivas caiu mais de 70%, devido a pressões económicas, abandono de áreas marginais e falta de rentabilidade. Consequentemente, dois terços dos habitats semi-naturais dependentes da gestão agrícola apresentam um estado de conservação frágil.
Os dados técnicos do relatório revelam o impacto da ausência de pastoreio:
- 92% das borboletas protegidas pelo Anexo II da Diretiva Habitats dependem de prados extensivamente geridos
- Aves de prado sob proteção legal e dependentes de prados permanentes constituem uma elevada proporção das aves protegidas listadas no Anexo I da Diretiva Aves
- 18,1% das plantas vasculares endémicas da Europa encontram-se em ecossistemas de prado; 15,5% em habitats de charneca e arbustos
Políticas públicas e financiamento
Para garantir a continuidade destes benefícios, a EEA defende o reforço das políticas públicas de apoio à pecuária extensiva e um maior investimento na monitorização dos habitats, na recolha de dados sobre as áreas de pastagem e na investigação sobre a viabilidade económica destes sistemas de produção.
Segundo o relatório, assegurar a sustentabilidade da pastorícia extensiva será determinante para cumprir os objetivos europeus de conservação e restauro da natureza, conciliando a proteção da biodiversidade, a gestão da paisagem e a prevenção de incêndios.
Aceda a toda a informação no site da Agência Europeia do Ambiente: https://www.eea.europa.eu/en/analysis/publications/extensive-livestock-systems-and-europes-nature